http://www.instituto-camoes.pt/encarte/encarte98a.htm
A Língua Portuguesa no Senegal
É, sem dúvida, uma situação singular, a da presença da língua portuguesa no Senegal. Sobretudo quando se tem em conta que se trata de um país da área da francofonia, onde a comunidade portuguesa e as comunidades de luso-descendentes ou de estrangeiros falantes de português são quantitativamente insignificantes. Não obstante, outros factores ajudam a compreender a forte implantação da língua portuguesa no sistema educativo senegalês. Os primeiros contactos de Portugal com a região onde hoje se situa a República do Senegal remontam ao final da primeira metade do século XV e coincidem com o início da exploração da costa africana. Estes contactos explicam a presença de vocábulos de origem portuguesa em algumas das línguas autóctones com mais forte implantação no Senegal, o mais curioso dos quais é, porventura, Tugël, palavra formada por redução de Portugal que, por metonímia, passou a designar a Europa. São também razões históricas que explicam o facto de algumas populações da Baixa Casamansa, situada no sul do país, entre a Gambia e a Guiné-Bissau, terem como língua materna um crioulo de base lexical portuguesa afim do guineense, língua comummente designada de «português» que, apesar de ter vindo a perder vitalidade, tem, para muitos dos casamansenses, um valor simbólico que se traduz num efeito vitalizante e potenciador de uma identidade cultural própria. A separação das regiões da Baixa Casamansa e da vizinha Guiné-Bissau resultou de um acordo político-diplomático luso-francês, de 1886, na sequência do qual a Casamansa passou, após vários séculos de presença portuguesa, a integrar o Senegal, de influência francesa, conservando-se, no entanto, a diferentes níveis, marcas da presença portuguesa na região. Assim, os laços históricos entre as duas regiões ajudam a compreender a invulgar presença da língua portuguesa no ensino secundário de Casamansa. Por outro lado, a proximidade geográfica de Cabo Verde e da Guiné-Bissau propiciou que, desde o início do século XX, muitos cabo-verdianos e guineenses emigrassem para o país vizinho, constituindo, no Senegal, duas influentes comunidades, falantes de crioulos de base lexical portuguesa, que frequentemente se miscigenaram com as populações locais, sendo fácil registar apelidos senegaleses como Alvarenga, Barboza, Carvalho, Corréa, Gomis, Mendy, Preira, Sylva, Tavares, etc. Para muitos senegaleses, o português é, mais do que uma das disciplinas que se aprendem ou que se ensinam nos "collèges", nos liceus ou na universidade, uma língua de adopção. Por isso, questionados os estudantes sobre as razões que os levaram a escolher o Português, obtemos respostas como: "é uma língua que me apaixona", "acho que não há outra língua mais importante do que esta", "é a língua mais bonita para falar de amor" ou "porque tenho nostalgia dela".São essas pessoas que alimentam as actividades dos Clubes de Português, de um recém-criado Comité de Defesa e Promoção da Língua e Cultura Portuguesa e de uma Associação de Professores de Português e que justificam a presença do Instituto Camões no Senegal.Actualmente, é o Instituto Camões que assegura quer a permanência de um Leitor na Faculdade de Letras e na FASTEF da UCAD quer o financiamento de múltiplas actividades, dirigidas prioritariamente aos estudantes de Português do ensino universitário e aos alunos e professores do ensino secundário do Senegal, actividades que, doravante, contarão com um importante suporte – o Centro de Língua Portuguesa de Dacar.