04-06-2008, 06:05 PM
Para quem interessar possa. Abreijos (abraços + beijos) 
Patinho
O mundo maravilhoso da palavra intraduzível
Termos que só existem em outros idiomas revelam que cada língua possui uma
abordagem distinta para a mesma realidade, mas suas diferenças podem ser
apenas aparentes Que o amor é complicado, ninguém questiona. Mas o povo
boro, da Índia, tem vocabulário aparentemente bem mais atento às nuances
desse sentimento do que muitas línguas. Para eles, onsay significa "fingir
amar"; ongubsy, "amar de verdade" e onsia, "amar pela última vez". Essa
busca pelo específico também pode ser observada entre os albaneses, cuja
fixação por bigodes (sim, bigodes) ganha vocabulário preciso e
diversificado: madh (bigode espesso), holl (fino), rruar (raspado), glemb
(com pontas afiadas) e por aí vai. São mais de dez tipos, além de 27 termos
dedicados a sobrancelhas. Da mesma forma, há na língua japonesa toda uma
variedade de sensações sinestésicas de difícil tradução.
É como se certos povos vissem e sentissem coisas e fenômenos a que outros
não parecem atentos. No livro Tingo - O Irresistível Almanaque das Palavras
que a Gente Não Tem (Conrad, 2007), o inglês Adam Jacot de Boinod compila
termos e expressões de diversos idiomas, como rapanui, inuíte, alemão e
japonês, cobrindo aspectos da experiência humana que os povos teriam em
comum, mas a linguagem, nem tanto.
O autor defende que algumas palavras descrevem conceitos e sensações
locais, e suas favoritas tendem a ressaltar um aspecto de uma cultura
específica. Na variedade babélica de línguas, chama a atenção a capacidade
de determinados vocábulos sintetizarem idéias complexas, peculiares.
É o caso de iktsuarpok, que em inuíte (idioma da nação indígena inuíte, da
região de Québec, Canadá) significa "ir muitas vezes à porta de casa para
ver se a pessoa vem vindo"; ou do termo holandês plimpplamppletteren , "fazer
uma pedra chata ricochetear na superfície da água o maior número de vezes
possível"; e até da palavra-título tingo, que em rapanui (idioma polinésio
da Ilha de Páscoa, território chileno ao sul do Pacífico) é "pedir
emprestadas uma a uma as coisas da casa de um amigo até não sobrar nada".
(Desculpe-me mas de tanto emprestar, fiquei sem açúcar ! )
Intraduzibilidade
A rigor, situações como essas existem em muitas culturas, mas é a maneira
como se cristalizaram em um único vocábulo que as tornaria tão especiais. A
palavra alemã Scheissenbedauern dificilmente encontraria equivalente em
nosso idioma, posto que significa "frustração de quando alguma coisa acaba
não sendo tão ruim como se esperava". Em contrapartida, a palavra
bakkushan, do japonês, encontraria equivalências nas gírias machistas
"raimunda" e "camarão", já que quer dizer "uma jovem que parece bonita vista
de trás, mas pode não ser quando vista de frente".
O fenômeno das palavras de difícil ou impossível tradução, para as quais o
idioma não dispõe de equivalentes tão significativos ou econômicos, é motivo
de constante espanto dos especialistas da linguagem, lembra Mário Eduardo
Viaro, professor da USP e colunista de Língua.
- O tema da "intraduzibilidade" , ou melhor, da não-correspondê ncia
palavra-por- palavra, já é antigo em lingüística. Estudiosos como Sapir,
Whorf, Nida já ficaram perplexos perante palavras aparentemente
intraduzíveis das línguas indígenas norte-americanas - explica Viaro.
Os últimos séculos do Ocidente, que ampliaram o contato entre culturas
distintas, parecem ter estreitado as distâncias entre povos, o que não só
aumentou as trocas entre economias e países, como estimulou a curiosidade em
torno do outro por nós desconhecido. Mostraram para a ciência que as
diferenças lingüísticas retratam a diversidade, e paralelos comuns: sentida
diferente, a experiência humana é parecida em lugares os mais diversos.
Essa, por exemplo, é a opinião de Jean Cristtus Portela, professor da Unesp
(Universidade Estadual Paulista), de Araraquara, como se vê no quadro
abaixo. Cada língua, afirma, tem "palavras de toque", "cristais raros", que
concentram a aventura humana de uma cultura, mas não convém generalizar o
que as separa, criando hierarquias entre idiomas.
- O "conteúdo" das palavras, por mais "estrangeiro" que seja, raramente nos
é completamente desconhecido, desde que nos disponhamos a apreciar a
experiência do outro (sua "forma de vida") com, ao menos, cumplicidade -
escreve.
Certas palavras, mais do que outras, parecem concentrar grandes experiências
de uma comunidade. Algumas, sem equivalentes numa unidade lexical de outras
línguas, seriam fruto de seqüências comportamentais, ações e cenas
recorrentes, que fazem a superfície "material" da língua assumir dada
configuração. Se poligamia é prática comum dos inuítes, em que os homens
trocam de esposas por dias, natural que tenham denominação concisa para ele
(areodjarekput) .
Pode não ser disparatado encarar a tradução cultural, a harmonia entre as
línguas, da maneira como em geral se encara uma tradução de obra literária
estrangeira, por exemplo. Tal como um livro ou filme gringo, as palavras
dos idiomas pedem a consideração do contexto lingüístico no qual estão
imersas, uma vez que a cultura dos povos manifesta-se principalmente por
meio de sua língua.
Segundo Regina Helena Machado Aquino Corrêa, tradutóloga e coordenadora do
curso de pós-graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina, há
termos que carregam uma forte carga cultural, e quanto mais intensa ela for,
maiores serão as barreiras tradutórias.
- São as experiências sensoriais, ligadas ao cheiro, ao sabor, à emoção, a
realidades além das lingüísticas, que estabelecem para o signo lingüístico
uma relação mais complexa do que aquela entre significante e significado -
afirma Regina.
Diante disso, um dos maiores desafios do tradutor de obras literárias, por
exemplo, é encontrar palavras que reflitam o estranhamento de uma realidade
alheia (homens, cores, plantas, odores e ritmos de uma cultura), como no
caso da palavra "capoeira" na versão em inglês do livro Tenda dos Milagres,
de Jorge Amado, traduzido por Barbara Shelby Merello.
- Nós brasileiros, que conhecemos a capoeira, sabemos que há algo para além
da palavra que nomeia essa luta e não pode ser transmitido por uma simples
explicação.
Seria impossível passar a imagem mnemônica de um signo cultural que
acompanha o signo lingüístico, e só a nossa experiência cultural é capaz
relacioná-la à nossa tradição de uso de mão-de-obra escrava - explica a
tradutóloga.
Contextos
Embora alguns povos pareçam mais atentos a resumir certas idéias em uma ou
poucas palavras, seria próprio de toda língua nomear fenômenos, situações e
objetos de acordo com "prioridades" de sua cultura, o que pode tornar
intraduzível o sentido de um termo sem a compreensão do contexto.
O entendimento do contexto é importante, por exemplo, até para entender a
"intraduzibilidade" que ocorre num mesmo idioma. O lingüista russo A.
Kondratov lembra em Sons e Sinais da Linguagem Universal (Editora
Coordenada, 1972) que uma mesma língua pode "recortar" ou classificar o
mundo de forma diferente em momentos distintos. Valendo-se das diferenças
entre o alemão arcaico e o moderno, Kondratov destaca o vocábulo Wurm, que
antigamente significava "verme", "serpente", "dragão" e "aranha".
Sabe-se, atualmente, que o alemão apresenta quatro palavras diferentes para
designar esses animais. Coube ao tempo e à evolução do idioma cunhar nomes
específicos para eles.
Adam Jacot de Boinod, autor da coletânea Tingo, faz o elogio dos contextos.
Em entrevista por e-mail, diz acreditar que as palavras revelam a
universalidade da experiência humana que estaria impressa sob a aparência de
diversidade lingüística.
Seu interesse por palavras estrangeiras surgiu quando trabalhava como
pesquisador do QI [Quite Interesting] , um programa de TV com perguntas e
respostas apresentado pelo ator Stephen Fry e exibido pela BBC de Londres.
Ansioso para encontrar palavras interessantes iniciadas por uma determinada
letra, Boinod recorria a dicionários estrangeiros, em que se deparava com
palavras enigmáticas e praticamente impronunciáveis.
- Boinod escreveu um "guia de viagens" lingüístico. Pelas palavras dos
outros vemos outras realidades, outras paisagens, comportamentos, que talvez
estejam aqui também, entre nós, invisíveis, porém. Invisíveis porque ainda
não temos, não tecemos as palavras certas - diz Gabriel Perissé, tradutor,
doutor em Filosofia da Educação e colunista de Língua.
Para Francisco Borba, lingüista e dicionarista (é dele o Dicionário Unesp
do Português Contemporâneo) , um livro como Tingo pode ter o mérito de chamar
a atenção do público para aspectos das línguas, mas seria preciso avaliá-lo
com reservas. A falta de bibliografia e informações precisas sobre o
contexto de uso das palavras em suas línguas de origem, além da carência de
etimologia dos termos escolhidos, podem decepcionar leitores iniciados em
questões de linguagem.
Processos a explicar
Segundo Maria Helena de Moura Neves, professora da Unesp (Araraquara) e do
Mackenzie (São Paulo), a obra traz palavras com processos de formação
heterogêneos, o que é natural por se tratar de vários idiomas. Mas a falta
de indicação sobre a natureza desses diferentes processos, que variam de
língua a língua, de palavra a palavra, faz de Tingo mero livro de
curiosidades, mais voltado ao entretenimento do que ao aprendizado
lingüístico propriamente dito.
No alemão, que produz muitas palavras compostas, Maria Helena ressalta que,
ao se juntarem dois radicais, o significado de um se projeta sobre o do
outro, o que gera um terceiro significado que, por sua vez, não representa
simplesmente a soma dos dois.
Um bom exemplo desse processo de composição é a palavra drachenfutter,
descrita no livro de Boinod como "presente que um marido culpado oferece à
esposa para se redimir", cujo sentido literal é "ração (futter) de dragão
(drachen)".
- É uma ironia que vivamos numa era em que a informação seja tão fácil de
obter e tão difícil de ser checada. Há muito se acabou o zelo solitário dos
lexicógrafos da era vitoriana, que me proviam com tanto material inédito,
muitos ignorados até mesmo pelos nativos da língua - afirma Boinod.
As palavras, expressão de hábitos e raciocínios de povos em séculos de uso,
deixam poucos rastros em que podemos nos fiar. Por isso, o paralelo mais
surpreendente entre significados comuns nos idiomas talvez não seja, para
quem se encanta com o fenômeno da linguagem, o das palavras que demarcam
nossa diferença, mas o do quanto sua disparidade comunica cada semelhança.
O mito do intraduzível
Cada língua tem palavras "sem tradução", mas aS experiência humana é comum a
vários povos Jean Cristtus Portela Partidários do intraduzível, a idéia de
que a barreira entre idiomas é intransponível, têm por deus a língua e por
santos, as A palavra drachenfutter, "presente que marido culpado dá a esposa
para redimir-se"
significa literalmente "ração" (futter) de "dragão" (drachen)
palavras, o conjunto estando orquestrado no céu das formas. Sensação e
percepção, cognição e pensamento, constituintes sutis e imateriais da
linguagem, não têm muito espaço nessa visão "concreta" (e parcial).
Cada língua tem "palavras de toque", cristais raros, que concentram a
aventura humana de uma cultura. Para deleite dos fetichistas do léxico,
muitas palavras "sem tradução"
são uma única unidade lexical (ainda que formadas por justaposição de
vocábulos), cuja explicação-traduçã o toma linhas de texto. Em si, isso não
é surpreendente: cada cultura tem seqüências comportamentais recorrentes
(ações, cenas, sentimentos) , que "forçam" a superfície material da língua a
ganhar corpo, contornos, vocalização, uma forma estável de denominação.
Se, na forma, há palavras de difícil tradução, no conteúdo não há
experiência humana expressa na língua que não possa ser transmitida a outro
humano. Se a forma pode nos ser estranha, pois vem de repertório de
sensações (sons, cores, volumes) diferente do nosso, com coerções sociais e
históricas distintas das que conhecemos, o conteúdo, por "estrangeiro" que
seja, raramente nos é tão desconhecido, desde que nos disponhamos a apreciar
a forma de vida do outro com cumplicidade.
Em geral, o mito do intraduzível insinua um desejo de superação: o tradutor
se debate com o "gênio da língua", que ganha proporção de montanhas,
abismos, imagens de pequenez e vertigem. Segundo o mito, os inimigos do
tradutor são a "densidade" (a opacidade), a "riqueza", a "raridade"
(preciosidade) da língua a ser traduzida, que parecem sempre maiores do que
a da língua para a qual se traduzirá. A "língua-alvo" ou "de chegada" é
insuficiente, está em posição de deficiência, de falta.
Essa lógica do menos e mais, da potência e da impotência, não serve para
pensar a diversidade de línguas e as diferenças que ela implica. Para quem
a aprecia com olhar zeloso, toda língua é preciosa. Já o especialista, sem
poder avaliar a "beleza" ou "racionalidade" de um idioma ("como é belo o
francês", "só se pode filosofar em alemão"), contenta-se em inventariar os
tipos lingüísticos.
Geralmente, no mito do intraduzível tudo tem seu valor assegurado pelo
pitoresco: o "dialeto tribal", os "resquícios de uma língua primitiva", o
"gênio da língua". Tudo é pitoresco e anedótico: "uma palavra para dizer
tudo isso!", "quem não conhece essa expressão não entende essa cultura",
"não leio traduções" etc. A idéia de intraduzibilidade nutre-se do senso
comum e promove preconceitos.
No culto do intraduzível, há fascínio pela impossibilidade de dizer.
Fascínio e medo:
admiramos quem pode dizer o que não podemos, duvidamos de quem nos ensina a
dizer o que não achávamos que podíamos.
------------ --------- --------- --------- --------- --------- -
Jean Cristtus Portela é semioticista e tradutor, doutor em linguística e
lingua portuguesa pela Unesp Araraquara
------------ --------- --------- --------- --------- --------- -
Palavra e Origem Significado
Tingo (Rapanui) Pedir emprestadas, uma a uma, as coisas da casa de um amigo
até não sobrar nada
Iktsuarpok (Inuíte) O ato de ir muitas vezes à porta de casa para ver se a
pessoa vem vindo
Kyouikumama (Japonês) Mulher que força os filhos a estudar demais
Giomlaireachd (Gaélico escocês) O hábito de aparecer na casa dos outros na
hora das refeições
Razbliuto (Russo) O afeto que ainda se sente por alguém que algum dia se
amou
Ohrwurm (Alemão) Música que fica na cabeça ou que se torna popular com
rapidez ("verme de ouvido")
Zakilpistola (Basco) Aquele que sofre de ejaculação precoce ("pinto
pistola")
Menggerumut (Indonésio) Aproximar-se de alguém em silêncio à noite para
transar
Sgriob (Gaélico escocês) Coceira no lábio superior pouco antes de tomar um
gole de uísque
Pagezuar (Albanês) Morrer antes de desfrutar as alegrias do casamento ou de
ver os filhos casados
Ciegayernos (Espanhol caribenho) Mulher que procura marido para a filha
------------ --------- --------- --------- --------- --------- -
- Endereço web:
http://www.revistal ingua.com. br/textos. asp?codigo= 11531
- Publicada em:
12/5/2008 11:59:41
- Impresso em:
4/6/2008 05:04:03 [INFORMAÇÕES] redacao@revistaling ua.com.br

Patinho
O mundo maravilhoso da palavra intraduzível
Termos que só existem em outros idiomas revelam que cada língua possui uma
abordagem distinta para a mesma realidade, mas suas diferenças podem ser
apenas aparentes Que o amor é complicado, ninguém questiona. Mas o povo
boro, da Índia, tem vocabulário aparentemente bem mais atento às nuances
desse sentimento do que muitas línguas. Para eles, onsay significa "fingir
amar"; ongubsy, "amar de verdade" e onsia, "amar pela última vez". Essa
busca pelo específico também pode ser observada entre os albaneses, cuja
fixação por bigodes (sim, bigodes) ganha vocabulário preciso e
diversificado: madh (bigode espesso), holl (fino), rruar (raspado), glemb
(com pontas afiadas) e por aí vai. São mais de dez tipos, além de 27 termos
dedicados a sobrancelhas. Da mesma forma, há na língua japonesa toda uma
variedade de sensações sinestésicas de difícil tradução.
É como se certos povos vissem e sentissem coisas e fenômenos a que outros
não parecem atentos. No livro Tingo - O Irresistível Almanaque das Palavras
que a Gente Não Tem (Conrad, 2007), o inglês Adam Jacot de Boinod compila
termos e expressões de diversos idiomas, como rapanui, inuíte, alemão e
japonês, cobrindo aspectos da experiência humana que os povos teriam em
comum, mas a linguagem, nem tanto.
O autor defende que algumas palavras descrevem conceitos e sensações
locais, e suas favoritas tendem a ressaltar um aspecto de uma cultura
específica. Na variedade babélica de línguas, chama a atenção a capacidade
de determinados vocábulos sintetizarem idéias complexas, peculiares.
É o caso de iktsuarpok, que em inuíte (idioma da nação indígena inuíte, da
região de Québec, Canadá) significa "ir muitas vezes à porta de casa para
ver se a pessoa vem vindo"; ou do termo holandês plimpplamppletteren , "fazer
uma pedra chata ricochetear na superfície da água o maior número de vezes
possível"; e até da palavra-título tingo, que em rapanui (idioma polinésio
da Ilha de Páscoa, território chileno ao sul do Pacífico) é "pedir
emprestadas uma a uma as coisas da casa de um amigo até não sobrar nada".
(Desculpe-me mas de tanto emprestar, fiquei sem açúcar ! )
Intraduzibilidade
A rigor, situações como essas existem em muitas culturas, mas é a maneira
como se cristalizaram em um único vocábulo que as tornaria tão especiais. A
palavra alemã Scheissenbedauern dificilmente encontraria equivalente em
nosso idioma, posto que significa "frustração de quando alguma coisa acaba
não sendo tão ruim como se esperava". Em contrapartida, a palavra
bakkushan, do japonês, encontraria equivalências nas gírias machistas
"raimunda" e "camarão", já que quer dizer "uma jovem que parece bonita vista
de trás, mas pode não ser quando vista de frente".
O fenômeno das palavras de difícil ou impossível tradução, para as quais o
idioma não dispõe de equivalentes tão significativos ou econômicos, é motivo
de constante espanto dos especialistas da linguagem, lembra Mário Eduardo
Viaro, professor da USP e colunista de Língua.
- O tema da "intraduzibilidade" , ou melhor, da não-correspondê ncia
palavra-por- palavra, já é antigo em lingüística. Estudiosos como Sapir,
Whorf, Nida já ficaram perplexos perante palavras aparentemente
intraduzíveis das línguas indígenas norte-americanas - explica Viaro.
Os últimos séculos do Ocidente, que ampliaram o contato entre culturas
distintas, parecem ter estreitado as distâncias entre povos, o que não só
aumentou as trocas entre economias e países, como estimulou a curiosidade em
torno do outro por nós desconhecido. Mostraram para a ciência que as
diferenças lingüísticas retratam a diversidade, e paralelos comuns: sentida
diferente, a experiência humana é parecida em lugares os mais diversos.
Essa, por exemplo, é a opinião de Jean Cristtus Portela, professor da Unesp
(Universidade Estadual Paulista), de Araraquara, como se vê no quadro
abaixo. Cada língua, afirma, tem "palavras de toque", "cristais raros", que
concentram a aventura humana de uma cultura, mas não convém generalizar o
que as separa, criando hierarquias entre idiomas.
- O "conteúdo" das palavras, por mais "estrangeiro" que seja, raramente nos
é completamente desconhecido, desde que nos disponhamos a apreciar a
experiência do outro (sua "forma de vida") com, ao menos, cumplicidade -
escreve.
Certas palavras, mais do que outras, parecem concentrar grandes experiências
de uma comunidade. Algumas, sem equivalentes numa unidade lexical de outras
línguas, seriam fruto de seqüências comportamentais, ações e cenas
recorrentes, que fazem a superfície "material" da língua assumir dada
configuração. Se poligamia é prática comum dos inuítes, em que os homens
trocam de esposas por dias, natural que tenham denominação concisa para ele
(areodjarekput) .
Pode não ser disparatado encarar a tradução cultural, a harmonia entre as
línguas, da maneira como em geral se encara uma tradução de obra literária
estrangeira, por exemplo. Tal como um livro ou filme gringo, as palavras
dos idiomas pedem a consideração do contexto lingüístico no qual estão
imersas, uma vez que a cultura dos povos manifesta-se principalmente por
meio de sua língua.
Segundo Regina Helena Machado Aquino Corrêa, tradutóloga e coordenadora do
curso de pós-graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina, há
termos que carregam uma forte carga cultural, e quanto mais intensa ela for,
maiores serão as barreiras tradutórias.
- São as experiências sensoriais, ligadas ao cheiro, ao sabor, à emoção, a
realidades além das lingüísticas, que estabelecem para o signo lingüístico
uma relação mais complexa do que aquela entre significante e significado -
afirma Regina.
Diante disso, um dos maiores desafios do tradutor de obras literárias, por
exemplo, é encontrar palavras que reflitam o estranhamento de uma realidade
alheia (homens, cores, plantas, odores e ritmos de uma cultura), como no
caso da palavra "capoeira" na versão em inglês do livro Tenda dos Milagres,
de Jorge Amado, traduzido por Barbara Shelby Merello.
- Nós brasileiros, que conhecemos a capoeira, sabemos que há algo para além
da palavra que nomeia essa luta e não pode ser transmitido por uma simples
explicação.
Seria impossível passar a imagem mnemônica de um signo cultural que
acompanha o signo lingüístico, e só a nossa experiência cultural é capaz
relacioná-la à nossa tradição de uso de mão-de-obra escrava - explica a
tradutóloga.
Contextos
Embora alguns povos pareçam mais atentos a resumir certas idéias em uma ou
poucas palavras, seria próprio de toda língua nomear fenômenos, situações e
objetos de acordo com "prioridades" de sua cultura, o que pode tornar
intraduzível o sentido de um termo sem a compreensão do contexto.
O entendimento do contexto é importante, por exemplo, até para entender a
"intraduzibilidade" que ocorre num mesmo idioma. O lingüista russo A.
Kondratov lembra em Sons e Sinais da Linguagem Universal (Editora
Coordenada, 1972) que uma mesma língua pode "recortar" ou classificar o
mundo de forma diferente em momentos distintos. Valendo-se das diferenças
entre o alemão arcaico e o moderno, Kondratov destaca o vocábulo Wurm, que
antigamente significava "verme", "serpente", "dragão" e "aranha".
Sabe-se, atualmente, que o alemão apresenta quatro palavras diferentes para
designar esses animais. Coube ao tempo e à evolução do idioma cunhar nomes
específicos para eles.
Adam Jacot de Boinod, autor da coletânea Tingo, faz o elogio dos contextos.
Em entrevista por e-mail, diz acreditar que as palavras revelam a
universalidade da experiência humana que estaria impressa sob a aparência de
diversidade lingüística.
Seu interesse por palavras estrangeiras surgiu quando trabalhava como
pesquisador do QI [Quite Interesting] , um programa de TV com perguntas e
respostas apresentado pelo ator Stephen Fry e exibido pela BBC de Londres.
Ansioso para encontrar palavras interessantes iniciadas por uma determinada
letra, Boinod recorria a dicionários estrangeiros, em que se deparava com
palavras enigmáticas e praticamente impronunciáveis.
- Boinod escreveu um "guia de viagens" lingüístico. Pelas palavras dos
outros vemos outras realidades, outras paisagens, comportamentos, que talvez
estejam aqui também, entre nós, invisíveis, porém. Invisíveis porque ainda
não temos, não tecemos as palavras certas - diz Gabriel Perissé, tradutor,
doutor em Filosofia da Educação e colunista de Língua.
Para Francisco Borba, lingüista e dicionarista (é dele o Dicionário Unesp
do Português Contemporâneo) , um livro como Tingo pode ter o mérito de chamar
a atenção do público para aspectos das línguas, mas seria preciso avaliá-lo
com reservas. A falta de bibliografia e informações precisas sobre o
contexto de uso das palavras em suas línguas de origem, além da carência de
etimologia dos termos escolhidos, podem decepcionar leitores iniciados em
questões de linguagem.
Processos a explicar
Segundo Maria Helena de Moura Neves, professora da Unesp (Araraquara) e do
Mackenzie (São Paulo), a obra traz palavras com processos de formação
heterogêneos, o que é natural por se tratar de vários idiomas. Mas a falta
de indicação sobre a natureza desses diferentes processos, que variam de
língua a língua, de palavra a palavra, faz de Tingo mero livro de
curiosidades, mais voltado ao entretenimento do que ao aprendizado
lingüístico propriamente dito.
No alemão, que produz muitas palavras compostas, Maria Helena ressalta que,
ao se juntarem dois radicais, o significado de um se projeta sobre o do
outro, o que gera um terceiro significado que, por sua vez, não representa
simplesmente a soma dos dois.
Um bom exemplo desse processo de composição é a palavra drachenfutter,
descrita no livro de Boinod como "presente que um marido culpado oferece à
esposa para se redimir", cujo sentido literal é "ração (futter) de dragão
(drachen)".
- É uma ironia que vivamos numa era em que a informação seja tão fácil de
obter e tão difícil de ser checada. Há muito se acabou o zelo solitário dos
lexicógrafos da era vitoriana, que me proviam com tanto material inédito,
muitos ignorados até mesmo pelos nativos da língua - afirma Boinod.
As palavras, expressão de hábitos e raciocínios de povos em séculos de uso,
deixam poucos rastros em que podemos nos fiar. Por isso, o paralelo mais
surpreendente entre significados comuns nos idiomas talvez não seja, para
quem se encanta com o fenômeno da linguagem, o das palavras que demarcam
nossa diferença, mas o do quanto sua disparidade comunica cada semelhança.
O mito do intraduzível
Cada língua tem palavras "sem tradução", mas aS experiência humana é comum a
vários povos Jean Cristtus Portela Partidários do intraduzível, a idéia de
que a barreira entre idiomas é intransponível, têm por deus a língua e por
santos, as A palavra drachenfutter, "presente que marido culpado dá a esposa
para redimir-se"
significa literalmente "ração" (futter) de "dragão" (drachen)
palavras, o conjunto estando orquestrado no céu das formas. Sensação e
percepção, cognição e pensamento, constituintes sutis e imateriais da
linguagem, não têm muito espaço nessa visão "concreta" (e parcial).
Cada língua tem "palavras de toque", cristais raros, que concentram a
aventura humana de uma cultura. Para deleite dos fetichistas do léxico,
muitas palavras "sem tradução"
são uma única unidade lexical (ainda que formadas por justaposição de
vocábulos), cuja explicação-traduçã o toma linhas de texto. Em si, isso não
é surpreendente: cada cultura tem seqüências comportamentais recorrentes
(ações, cenas, sentimentos) , que "forçam" a superfície material da língua a
ganhar corpo, contornos, vocalização, uma forma estável de denominação.
Se, na forma, há palavras de difícil tradução, no conteúdo não há
experiência humana expressa na língua que não possa ser transmitida a outro
humano. Se a forma pode nos ser estranha, pois vem de repertório de
sensações (sons, cores, volumes) diferente do nosso, com coerções sociais e
históricas distintas das que conhecemos, o conteúdo, por "estrangeiro" que
seja, raramente nos é tão desconhecido, desde que nos disponhamos a apreciar
a forma de vida do outro com cumplicidade.
Em geral, o mito do intraduzível insinua um desejo de superação: o tradutor
se debate com o "gênio da língua", que ganha proporção de montanhas,
abismos, imagens de pequenez e vertigem. Segundo o mito, os inimigos do
tradutor são a "densidade" (a opacidade), a "riqueza", a "raridade"
(preciosidade) da língua a ser traduzida, que parecem sempre maiores do que
a da língua para a qual se traduzirá. A "língua-alvo" ou "de chegada" é
insuficiente, está em posição de deficiência, de falta.
Essa lógica do menos e mais, da potência e da impotência, não serve para
pensar a diversidade de línguas e as diferenças que ela implica. Para quem
a aprecia com olhar zeloso, toda língua é preciosa. Já o especialista, sem
poder avaliar a "beleza" ou "racionalidade" de um idioma ("como é belo o
francês", "só se pode filosofar em alemão"), contenta-se em inventariar os
tipos lingüísticos.
Geralmente, no mito do intraduzível tudo tem seu valor assegurado pelo
pitoresco: o "dialeto tribal", os "resquícios de uma língua primitiva", o
"gênio da língua". Tudo é pitoresco e anedótico: "uma palavra para dizer
tudo isso!", "quem não conhece essa expressão não entende essa cultura",
"não leio traduções" etc. A idéia de intraduzibilidade nutre-se do senso
comum e promove preconceitos.
No culto do intraduzível, há fascínio pela impossibilidade de dizer.
Fascínio e medo:
admiramos quem pode dizer o que não podemos, duvidamos de quem nos ensina a
dizer o que não achávamos que podíamos.
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Jean Cristtus Portela é semioticista e tradutor, doutor em linguística e
lingua portuguesa pela Unesp Araraquara
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Palavra e Origem Significado
Tingo (Rapanui) Pedir emprestadas, uma a uma, as coisas da casa de um amigo
até não sobrar nada
Iktsuarpok (Inuíte) O ato de ir muitas vezes à porta de casa para ver se a
pessoa vem vindo
Kyouikumama (Japonês) Mulher que força os filhos a estudar demais
Giomlaireachd (Gaélico escocês) O hábito de aparecer na casa dos outros na
hora das refeições
Razbliuto (Russo) O afeto que ainda se sente por alguém que algum dia se
amou
Ohrwurm (Alemão) Música que fica na cabeça ou que se torna popular com
rapidez ("verme de ouvido")
Zakilpistola (Basco) Aquele que sofre de ejaculação precoce ("pinto
pistola")
Menggerumut (Indonésio) Aproximar-se de alguém em silêncio à noite para
transar
Sgriob (Gaélico escocês) Coceira no lábio superior pouco antes de tomar um
gole de uísque
Pagezuar (Albanês) Morrer antes de desfrutar as alegrias do casamento ou de
ver os filhos casados
Ciegayernos (Espanhol caribenho) Mulher que procura marido para a filha
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12/5/2008 11:59:41
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